Segundo a psicologia, Hemingway tinha razão: “Leva-se dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a ficar em silêncio”

A reflexão de Hemingway também se relaciona à autoconsciência, ao autocontrole e à regulação emocional © Amber Weir / Unsplash

O autor norte-americano nos deixou com algumas citações sobre comunicação que escondem um significado psicológico muito maior do que aparentam.

Por Livia D’Ambrosio / minhavida
Curitiba, 24 de março de 2026

Ernest Hemingway foi e continua sendo um dos autores mais importantes da história. Figura de destaque na literatura americana, graças a livros como O Velho e o Mar, ele conquistou o Prêmio Pulitzer e o Prêmio Nobel de Literatura. O autor afirmava que gostava de ouvir porque “aprendeu muito ouvindo com atenção. A maioria das pessoas nunca ouve”. É justamente sobre a importância de aprender a ouvir que trata esta reflexão.

Matt Abrahams, professor da Stanford Business School e especialista em comunicação eficaz, afirma que dizer “conte-me mais” aumenta quase imediatamente a conexão com a outra pessoa, pois demonstra interesse e empatia, além de permitir aprendizado — como Hemingway destacou de forma tão precisa. Ainda assim, o silêncio costuma causar desconforto, pois muitas vezes é associado à solidão. No entanto, aprender a utilizá-lo de forma consciente é uma ferramenta poderosa de comunicação.

“Leva-se dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a ficar em silêncio”, disse Ernest Hemingway — uma frase que ressoa profundamente na psicologia. A citação funciona como uma metáfora: falar e ser ouvido são habilidades desenvolvidas rapidamente, mas a capacidade de escolher quando não falar é mais complexa e pode levar uma vida inteira para ser dominada.

Aprender a falar é um processo natural. As crianças balbuciam, repetem palavras e brincam com elas — trata-se de uma aprendizagem rápida e quase inevitável. Já o silêncio é uma habilidade que se desenvolve com o tempo. Pode-se dizer que falar é o primeiro passo em direção ao outro, enquanto o silêncio representa um retorno a si mesmo. No dia a dia, ele ajuda a evitar a sobrecarga de informações e favorece a reflexão. Ainda assim, muitas pessoas têm dificuldade em permanecer em silêncio, como se isso causasse incômodo.

Sob uma perspectiva filosófica, o silêncio é visto menos como ausência e mais como presença. Para os estoicos, por exemplo, ele representa uma forma de sabedoria. O silêncio é utilizado para acalmar a mente, estimular a autoconsciência, ouvir com atenção e responder com equilíbrio, em vez de agir por impulso. No budismo, o silêncio é considerado uma porta de entrada para a clareza, pois é nesse estado que a mente reduz o ruído e consegue perceber a realidade com mais nitidez.

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Qual é a relação do silêncio com a psicologia contemporânea?

De modo geral, a psicologia busca compreender o indivíduo e suas relações, e a citação de Hemingway dialoga diretamente com aspectos da inteligência emocional. O silêncio, nesse contexto, é essencial para uma comunicação eficaz, já que nem todos os espaços precisam ser preenchidos com palavras. Na terapia, por exemplo, os momentos de silêncio são quase tão importantes quanto a fala, pois criam um espaço onde pensamentos e emoções podem emergir. O mesmo ocorre nos relacionamentos: o silêncio pode ser construtivo — não como forma de punição, mas como expressão de escuta.

Silêncio para compreender

Em uma conversa, quando o silêncio é utilizado como forma de escuta, cria-se um ambiente seguro para que o outro se expresse sem receio de julgamento. Praticar a escuta ativa, como destaca Abrahams, demonstra interesse, empatia e abertura para aprender — além de reconhecer que não se sabe tudo. Embora pareça simples, ouvir com qualidade exige atenção plena e a capacidade de deixar de lado a própria fala para se concentrar no outro.

Silêncio como ferramenta de autocontrole

A reflexão de Hemingway também se relaciona à autoconsciência, ao autocontrole e à regulação emocional. Ao aprender a permanecer em silêncio, evita-se reagir de forma impulsiva diante de emoções como ansiedade ou raiva. Esse processo envolve fazer uma pausa, respirar e reconhecer os próprios sentimentos antes de agir — ou seja, regular as emoções. Optar por não responder imediatamente a uma mensagem provocativa ou escolher ouvir em vez de se defender são exemplos de autocontrole. Nesse sentido, o silêncio não representa passividade, mas domínio emocional.

Silêncio como sinal de maturidade emocional

Ao sugerir que são necessários sessenta anos para aprender a ficar em silêncio, Hemingway faz referência à maturidade emocional. Pessoas mais maduras compreendem que o silêncio não é uma perda, mas uma escolha consciente sobre onde investir energia. Esse entendimento é resultado de experiências acumuladas, erros, impulsos e aprendizados ao longo da vida. A teoria do desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson indica que, com o passar do tempo — e a resolução saudável de conflitos —, surge uma maior sabedoria, que inclui a capacidade de valorizar o silêncio como parte essencial da comunicação.