29 de março de 2025

O core abdominal desempenha um papel fundamental tanto nas atividades diárias, como levantar da cama, agachar-se ou ir ao banheiro, quanto durante a prática de exercícios físicos. Esse conjunto de músculos atua de forma quase imperceptível, contribuindo para a estabilização e o equilíbrio do corpo em diversas situações, sem que notemos sua importância.
Apesar de sua atuação discreta, quando o core está enfraquecido ou não funciona corretamente, até as atividades mais comuns podem se dificultar e gerar desconforto. Um sinal de alerta de que algo não está bem é sentir dor ao executar tarefas antes fáceis, como levantar pesos. Outros indícios incluem mudanças no contorno abdominal, como abaulamento ou sensação de pressão em áreas específicas, que podem indicar lesões na musculatura.
A Dra. Charlotte Horne, cirurgiã metabólica e especialista em reconstrução da parede abdominal na Mayo Clinic, reforça que manter a força e a saúde do core é essencial para proteger essa região e evitar complicações, como hérnias. Confira 5 dicas essenciais para fortalecer o core e garantir o bem-estar abdominal.
A parede abdominal é uma unidade muscular complexa que se estende do diafragma até a pelve óssea. Esse conjunto muscular não se resume apenas aos músculos “tanquinho” (reto abdominal), mas também inclui os músculos oblíquos, o psoas e os músculos das costas. Compreender como esses músculos interagem entre si e com o tecido conjuntivo é fundamental para avaliar problemas de saúde que podem afetar a qualidade de vida, como questões urinárias, constipação e sintomas relacionados a condições como hérnias.
A Dra. Horne explica que os músculos abdominais funcionam como uma unidade e precisam ser ativados nas atividades cotidianas, como ao sentar, levantar ou caminhar. Não é necessário realizar milhares de abdominais – a chave está em ativar os músculos profundos de forma consciente.
Para lidar com problemas na parede abdominal, é essencial fortalecer os músculos profundos, especialmente o músculo transverso do abdômen, que conecta a parte frontal do tronco aos músculos posteriores, do diafragma até os ossos do quadril. Esse músculo desempenha um papel importante na estabilidade e força abdominal. Uma técnica eficaz é “puxar o umbigo em direção à coluna”, simulando uma leve “sucção”, o que ativa o transverso e coordena o movimento entre os músculos anteriores e posteriores. Isso fortalece o núcleo e melhora a estabilidade em atividades diárias, como levantar-se ou sentar-se.
Quando o core está enfraquecido ou não funciona corretamente, até as atividades mais comuns podem se dificultar e gerar desconforto © Divulgação
No caso de lesões abdominais, o primeiro passo é identificar o tipo de problema: fraqueza muscular, lesão ou hérnia. A fisioterapia precoce é recomendada tanto para tratamentos conservadores quanto pós-cirúrgicos, pois ajuda a trabalhar o núcleo abdominal como um todo e reforça o suporte muscular necessário para manter o corpo estável e funcional ao longo do dia. “Quando as pessoas fazem yoga ou pilates, muitas vezes ouvem o conselho de ‘puxar o umbigo em direção à coluna’. Esse simples movimento ajuda a engajar o transverso do abdômen, um músculo profundo que estabiliza a parede abdominal”, ressalta a médica.
As mulheres têm uma predisposição maior para o desenvolvimento de problemas como hérnias, especialmente devido às mudanças na parede abdominal durante a gravidez. Esse processo enfraquece a musculatura abdominal, o que pode dificultar a recuperação no pós-parto. Além disso, há um enfraquecimento natural durante a menopausa, período em que a perda de massa muscular nas mulheres se acelera. Por isso, adotar um treinamento de força se torna essencial. Cirurgias ginecológicas, como as realizadas no tratamento do câncer de ovário ou útero, também podem aumentar o risco de lesões abdominais.
A gravidez pode, ainda, gerar estresse nos músculos do assoalho pélvico, que fazem parte do core abdominal. Exercícios específicos ou fisioterapia são fundamentais para auxiliar na recuperação dessa região. Vale destacar que o fortalecimento do assoalho pélvico não é exclusivo das mulheres: os homens também podem se beneficiar de fisioterapia nessa área em casos de fraquezas ou deficiências.
Mais do que excesso de atividade física, problemas abdominais podem ser agravados por condições que aumentam a pressão intra-abdominal, como tosse crônica, doenças inflamatórias intestinais ou complicações pós-cirúrgicas. “Tossir frequentemente exerce uma pressão significativa sobre a parede abdominal, o que pode contribuir para o desenvolvimento de hérnias”, explica a Dra. Horne.
Diante disso, adotar medidas preventivas é fundamental. Evitar o tabagismo, que pode causar tosse crônica, e o consumo excessivo de álcool, que enfraquece o fígado e a parede abdominal, são passos essenciais para proteger o core e a saúde abdominal como um todo. Pacientes com doenças inflamatórias intestinais também apresentam maior risco, isso ocorre porque é preciso gerar força abdominal para urinar ou evacuar, e, se houver um defeito na parede abdominal, essa força pode ser dissipada, agravando os sintomas. Além disso, eles tendem a necessitar de cirurgias abdominais, o que aumenta as chances de surgimento de hérnias.
O envelhecimento é outro fator relevante. Embora os sintomas de hérnia possam surgir em qualquer idade, eles se tornam mais frequentes a partir dos 40 ou 50 anos. Isso acontece porque, com o passar do tempo, o tecido conjuntivo vai perdendo força, e a produção de colágeno – fundamental para a sustentação muscular – diminui. Esse processo pode resultar em condições como a diástase abdominal, anteriormente associada quase exclusivamente às mulheres após a gravidez. Hoje, sabe-se que ela também ocorre em homens, especialmente na faixa dos 60 e 70 anos. Ou seja, trata-se de um fenômeno que afeta diferentes gêneros e idades, mas que se manifesta de formas distintas ao longo da vida.
Para os idosos, a prioridade é preservar a mobilidade e manter um estilo de vida ativo. Isso pode incluir o uso de dispositivos auxiliares, como andadores ou bengalas, se necessário. A mobilidade é essencial para a saúde geral, pois, de forma simples, quanto mais a pessoa se move, mais saudável e funcional tende a ser.
Nos últimos anos, a abordagem cirúrgica evoluiu, focando em técnicas que mimetizem o funcionamento natural da parede abdominal. O procedimento inclui geralmente o fechamento do defeito herniário com suturas e a aplicação de uma tela em uma camada fisiológica, funcionando como parte integrada da parede abdominal e não apenas como um “remendo”.
A eficácia do reparo depende da compreensão de como a atividade física diária exerce impacto sobre a área tratada. Por isso, os cirurgiões ajustam a técnica de acordo com o estilo de vida do paciente, especialmente se ele desempenha atividades físicas intensas ou trabalhos que exigem esforço físico. O objetivo final é devolver ao paciente sua qualidade de vida e permitir que ele retome seu nível desejado de atividade, com segurança e sem limitações.
Mesmo hérnias grandes, de até 15 centímetros, podem ser tratadas com técnicas modernas, como cirurgias robóticas e minimamente invasivas. A Dra. Horne utiliza modelos 3D para planejar as operações e, em alguns casos, aplica botox para alongar os músculos abdominais antes da cirurgia.
“Os pacientes costumam passar de uma parede abdominal disfuncional para uma funcional em cerca de uma semana. Depois, é incrível ver como eles retomam suas vidas e fazem coisas que antes pareciam impossíveis”, relata. Essa abordagem pode ser recomendada para pessoas que não se sentem confortáveis em operar ou preferem adiar o procedimento, considerando que o risco de uma emergência é baixo (cerca de 1% ao ano). No entanto, estudos mostram que, após cinco anos, cerca de 70% dos pacientes que optaram por essa espera acabaram fazendo a cirurgia devido ao desconforto crescente.
Problemas no core abdominal, como hérnias, nem sempre são preocupantes, mas a condição pode causar dor, especialmente ao tossir, se curvar ou levantar objetos pesados. Muitas vezes, o primeiro sinal é uma saliência próxima ao osso púbico, que se torna mais perceptível quando a pessoa está em pé ou realiza algum esforço físico. Nesses casos, é recomendável procurar um médico.
Alguns sintomas que merecem atenção incluem: Sensação de queimação ou dor na região da protuberância, desconforto na região da virilha, sensação de peso ou pressão na área abdominal e inchaço ou dor ao redor dos testículos, em casos em que o intestino se desloca para o escroto.
Embora as hérnias nem sempre levem a consequências graves, existe o risco de complicações. Se o intestino ficar preso dentro da hérnia, ele pode ser comprimido a ponto de não receber o fornecimento adequado de sangue. Essa condição, chamada de hérnia estrangulada, exige cirurgia de emergência para garantir que o intestino seja reposicionado corretamente na cavidade abdominal e sobreviva. “A doença herniária pode ser insidiosa, com sintomas que tendem a se desenvolver de forma lenta e gradual. No entanto, se a hérnia começar a provocar dor ou desconforto significativo, ou interferir na capacidade de realizar atividades diárias, é essencial considerar uma avaliação médica para discutir a possibilidade de reparo cirúrgico”, explica o Dr. Horne.