Obesidade mais que triplica no Brasil em três décadas; especialista destaca papel da atividade física na prevenção

Exercício orientado e preservação da massa muscular integram o cuidado com a saúde de pessoas com obesidade © Imagem gerada por IA / Global Comunicação

Estudo publicado na revista The Lancet reforça a necessidade de estratégias sustentáveis para combater a doença; profissional de Educação Física Jauan Anselmo alerta para os riscos de dietas restritivas e defende a preservação da massa muscular durante o emagrecimento.

Por AF2 Assessoria
Curitiba, 17 de outubro de 2026

A obesidade mais que triplicou no Brasil entre 1990 e 2023, passando de 7,8% para 27,7% da população com 25 anos ou mais. O crescimento, identificado por estudo da série Carga Global de Doenças (GBD), conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e publicado em setembro deste ano na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, reforça a necessidade de ampliar as estratégias de prevenção e enfrentamento da doença.

No contexto do Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, celebrado no último domingo (11), a discussão também destaca o papel da atividade física na promoção da saúde e na prevenção de complicações associadas ao excesso de gordura corporal.

Segundo o levantamento, entre os 17 países latino-americanos analisados, o Brasil apresentou o maior crescimento da prevalência de obesidade no período estudado. Dados do Ministério da Saúde, por meio do sistema Vigitel, também apontam a dimensão do problema: cerca de 25,7% dos adultos brasileiros vivem com obesidade, o equivalente a aproximadamente uma em cada quatro pessoas. Entre crianças e adolescentes, o cenário exige atenção igualmente urgente, já que 177 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos vivam com a doença em 2025, segundo estimativa do Atlas Mundial da Obesidade.

Para o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício Jauan Anselmo, os números mostram que o enfrentamento da obesidade precisa ir além de medidas pontuais de emagrecimento. A prevenção passa pela incorporação de hábitos saudáveis desde a infância, pelo acesso à prática regular de exercícios e por estratégias individualizadas, que considerem as condições físicas, a rotina e as necessidades de cada pessoa.

“Isso é uma questão de saúde que não pode ser tratada apenas pela aparência ou pelo número que aparece na balança, agora é preciso olhar para os hábitos alimentares, nível de atividade física, qualidade do sono e histórico de saúde. O exercício físico, especialmente quando bem orientado, é uma ferramenta importante tanto na prevenção quanto no tratamento, mas precisa fazer parte de uma estratégia consistente, possível de manter”, explica.

Exercício físico e preservação da massa muscular

Na avaliação do especialista, um dos erros mais comuns no processo de emagrecimento é priorizar a perda rápida de peso sem considerar o que está sendo eliminado. Dietas extremamente restritivas, especialmente quando não são acompanhadas de treinamento de força, podem levar à redução de massa muscular, além da perda de gordura.

Um estudo sobre essa preservação durante o emagrecimento, publicado em 2017 no The American Journal of Clinical Nutrition (AJCN), destaca que a restrição calórica pode resultar em perda significativa de massa magra. Em determinados contextos de emagrecimento agressivo, essa parcela pode representar de 25% a 33% do peso perdido, embora o resultado varie conforme a estratégia adotada e as características individuais.

“A pessoa pode até ver o peso baixar rapidamente, mas isso não significa necessariamente que esteja perdendo gordura na proporção desejada. Quando há perda excessiva de massa muscular, o organismo também perde força e capacidade funcional, por isso o objetivo deve ser melhorar a composição corporal, reduzindo a gordura e preservando a musculatura”, afirma Jauan.

A massa muscular desempenha funções importantes na mobilidade, na força, na autonomia e no gasto energético do organismo. Sua preservação é, portanto, um componente relevante tanto para quem busca perder peso quanto para pessoas que precisam prevenir ou controlar a obesidade.

Nesse contexto, o treinamento de força, como a musculação, combinado a uma alimentação adequada, contribui para preservar a massa magra durante a perda de gordura. A ingestão de proteínas deve ser ajustada às necessidades de cada indivíduo, considerando fatores como peso, idade, rotina de exercícios e condições de saúde, preferencialmente com orientação de um nutricionista.

“Musculação não é apenas para quem quer ganhar músculos ou melhorar a estética. O treinamento de força é uma ferramenta de saúde e deve fazer parte das estratégias de prevenção e tratamento da obesidade, respeitando as condições de cada pessoa. O importante é construir um plano que combine exercícios, alimentação adequada e regularidade, em vez de apostar em soluções radicais que não se sustentam”, orienta o especialista.

Prevenção começa com hábitos sustentáveis

A prevenção da obesidade exige atenção também aos fatores sociais e ambientais que influenciam os hábitos de vida. Entre crianças e adolescentes, estimular brincadeiras ativas, esportes, deslocamentos a pé quando possível e a redução do tempo sedentário são medidas que podem contribuir para uma rotina mais saudável. A participação da família, das escolas e das políticas públicas é fundamental para ampliar as oportunidades de movimento desde os primeiros anos.

Para os adultos, o ponto de partida não precisa ser uma rotina intensa de exercícios. A frequência e a intensidade podem ser aumentadas gradualmente, de acordo com a capacidade física e as orientações profissionais. O mais importante é encontrar atividades possíveis de incorporar ao cotidiano e manter a regularidade.

“Não existe uma fórmula única para todos. Uma pessoa sedentária precisa de um planejamento diferente daquele que já treina há anos. É possível começar com metas pequenas e evoluir progressivamente. O que faz diferença é a continuidade. A prevenção não depende de uma dieta milagrosa ou de semanas de esforço extremo, mas de mudanças que possam ser mantidas na vida real”, destaca Jauan Anselmo.

O especialista ressalta que a obesidade é uma condição complexa, influenciada por fatores biológicos, comportamentais, ambientais e sociais, e que seu tratamento exige acompanhamento multiprofissional. A atividade física é uma parte importante desse cuidado, mas deve estar integrada às demais medidas de saúde, sendo um ‘freio’ diante do avanço dos índices no país.

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