Raphael Di Lascio propõe articulação inédita entre IES e CRP-PR para qualificar a formação em Psicologia

Raphael Di Lascio destaca a solidão estrutural do coordenador de Psicologia e a urgência de criar uma rede colaborativa estadual © CRP-PR

Em entrevista exclusiva, uma das principais referenciais da Psicologia paranaense analisa os desafios atuais da formação, a urgência de recompor a coesão entre academia e profissão e o papel do Fórum de Coordenadores na reconstrução da qualidade no Estado.

Por Comunicação / CRP-PR
Curitiba, 8 de dezembro de 2025

Com mais de 40 anos de atuação profissional e institucional, o professor Raphael Henrique Castanho Di Lascio, coordenador-geral do Fórum de Coordenadores do CRP-PR, defende que a formação em Psicologia exige presença, redes de apoio e compromisso ético — e que o Paraná tem a chance de assumir protagonismo nacional com a nova proposta estruturada pelo Conselho.

Solidão estrutural da coordenação e a gênese do Fórum

Raphael Di Lascio fala da coordenação de curso com a autoridade de quem viveu a função por mais de duas décadas e em três realidades institucionais distintas — UTP, Universidade Positivo e UniDomBosco.

“O coordenador é um gestor que vive espremido entre professores, técnicos e alunos. É uma função que carrega solidão, pressão e, muitas vezes, decisões difíceis nos dois lados”, afirma.

Coordenador-geral do Fórum, Raphael enfatiza que o novo ciclo do CRP-PR cria terreno fértil para reconstruir a qualidade da formação em Psicologia © CRP-PR

Foi dessa solidão — compartilhada, segundo ele, pela maioria dos coordenadores — que surgiu a necessidade de um espaço de troca real. Somaram-se a isso as pressões do mercado educacional, que colocam IES em constante competição, criando barreiras artificiais para diálogos que deveriam ser pedagógicos, não comerciais.

“Independentemente da instituição, as demandas são as mesmas: dificuldades semelhantes, angústias semelhantes, desafios semelhantes. Precisávamos de um espaço para falar de formação, de ética, de saúde mental, do perfil de aluno que chega às IES. E esse foi o sentido do Fórum: criar apoio e não isolamento”, explica Di Lascio.

“Como formar um psicólogo se a construção crítica é substituída por atalhos? A Psicologia demanda presença, reflexão e vínculo — e nada disso se abrevia.”

Para Raphael, a criação do Fórum responde não apenas a um problema estrutural, mas a um momento de crise social que atravessa os cursos de Psicologia. O aumento de casos de ansiedade, depressão e sofrimento psíquico atinge professores, estudantes e profissionais igualmente — e o coordenador se vê, muitas vezes, sem ferramentas institucionais para conduzir a complexidade crescente da sala de aula contemporânea.

Uma rede para enfrentar desafios

A metodologia proposta por Raphael para o Fórum é simples, porém profundamente transformadora: criar uma grande rede de coordenadores, articulada ao CRP-PR e às comissões técnicas, capaz de apoiar a qualificação ética e profissional em todo o Estado.

“Não podemos obrigar ninguém a participar, mas podemos construir um network sólido, capaz de formar multiplicadores e oferecer apoio real para quem está sozinho”, aponta. A ideia é que professores de ética, responsáveis técnicos, coordenadores de clínica-escola e conselheiros formem uma malha de orientação coesa e contínua.

Raphael defende que o Paraná tem força técnica para liderar a Psicologia nacional e precisa tornar visível o valor de seus profissionais © CRP-PR

Essa rede, segundo ele, é a única maneira de corrigir distorções que se acumulam ao longo do tempo. Raphael cita, por exemplo, profissionais formados há 10, 15 ou 20 anos, que seguem atuando sem uma atualização adequada — e que acabam cometendo infrações não por má-fé, mas por desconhecimento.

“Nosso objetivo não é punir — jamais foi. O foco central é orientar, acolher e oferecer as condições para que cada profissional possa se atualizar e atuar com qualidade. A punição deixa de ser regra e passa a ser exceção: será aplicada apenas àquele que, mesmo diante de todo o suporte oferecido, insistir deliberadamente em permanecer no erro e à margem do processo”, reforça.

A sala de aula como novo campo de tensão

Quando questionado sobre a dinâmica contemporânea das salas de aula no ensino superior, Raphael não hesita: há, sim, um enfrentamento crescente — e ele é estrutural.

Segundo ele, o ambiente formativo mudou radicalmente. “O aluno hoje é muito ansioso e acha que, porque leu um livro, já entende tudo”, relata. Esse fenômeno se intensifica com a facilidade de acesso à informação: Google, redes sociais, aplicativos de resumo e ferramentas de IA generativa, como o ChatGPT, entram em cena como fontes rápidas e superficiais de conhecimento que alimentam certezas frágeis e reforçam achismos.

O resultado é um aluno que, frequentemente, não reconhece a autoridade do professor, mesmo quando este acumula décadas de estudo, prática e pesquisa. “Muita gente não quer mais escutar o professor que tem notório saber, alguém que estudou anos para falar sobre teorias, formas e jeitos”, observa Raphael.

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Esse tensionamento exige do docente uma postura de constante atualização e resiliência. O professor, além de ensinar, passa a disputar espaço simbólico com a tecnologia e com a cultura do imediatismo, que oferece respostas prontas, mas não sustenta pensamento crítico.

Raphael é contundente: as propostas e discursos que chegam aos cursos de Psicologia hoje muitas vezes colidem com os fundamentos da profissão. Por isso, afirma, o professor precisa também se reciclar — não apenas para dominar novos recursos tecnológicos, mas para reafirmar a centralidade da relação humana, base da identidade profissional do psicólogo.

A leitura desse cenário reforça o papel estruturante do Fórum de Coordenadores: criar redes, discutir práticas, redefinir protocolos e recolocar a formação em Psicologia no eixo, diante de um contexto que desafia docentes, gestores e instituições de forma inédita.

Integração estratégica do Fórum ao projeto institucional do CRP-PR

O Fórum nasce, segundo Raphael, já integrado ao planejamento estratégico do CRP-PR. Esse ponto dá à iniciativa uma densidade histórica que poucas ações do Conselho tiveram nas últimas décadas. No lançamento, a presença do presidente do CRP-PR, professor doutor Gilberto Gaertner, responsável por garantir respaldo institucional à agenda, reforçou o caráter prioritário do projeto para a gestão atual. Raphael também destacou a participação ativa da presidente da Comissão de Ética, Deisy Joppert, e da presidente da Comissão de Orientação e Fiscalização, Jéssica Tonioti — gesto simbólico que sinaliza uma articulação inédita entre formação, ética e fiscalização no Estado.

“Estamos alinhando desde o início. Conselheiros, direção e comissões já entenderam a proposta. O Fórum é parte do plano estratégico do Conselho. Isso nunca aconteceu dessa forma”, explica.

Raphael e Gilberto Gaertner reforçam a sintonia entre gestão, ética e formação no projeto que integra coordenadores, responsáveis técnicos e docentes de ética em todo o Paraná © CRP-PR

Mais do que alinhamento administrativo, a proposta une dois mundos que raramente dialogam com profundidade: a academia, que forma; e o Conselho, que acompanha, orienta e fiscaliza o egresso. “Se eu sei o que está acontecendo no campo, se recebo informações do Conselho, posso ajustar a formação. E se o Conselho entende como formamos, pode orientar melhor os profissionais”, afirma.

Para Raphael, essa integração é decisiva para romper uma lógica histórica de punições tardias e queixas recorrentes. Ele é direto: “Acaba aquela desculpa: ‘não me avisaram’. A partir de agora, quem quiser se atualizar terá apoio. Quem não quiser, arcará com as consequências.”

EAD e a essência relacional da Psicologia

Um dos pontos mais sensíveis do Fórum foi a discussão sobre cursos EAD. Raphael aborda o tema com rigor técnico e convicção. Para ele, há limites instransponíveis para a modalidade remota quando se trata de Psicologia.

Ele retoma a fala da professora Ângela Fátima Soligo, vice-presidente da ABEP, durante sua palestra no Fórum de Coordenadores sobre o Marco Regulatório da Psicologia, enfatizando que a Psicologia é, por natureza, uma ciência relacional: teoria, prática, clínica e supervisão se estruturam no vínculo, na observação e na presença.

“Toda a Psicologia passa pela relação. Não há formação possível sem isso”, reforça Raphael. E contextualiza a luta histórica da categoria pela regulamentação da modalidade presencial: desde 2016, fóruns, debates e mobilizações nacionais trabalham pela consolidação de um marco regulatório que garanta a integridade da formação. Raphael participou desse movimento desde o início.

O novo momento institucional do CRP-PR

Raphael acompanha o Conselho desde 2001 — como conselheiro, presidente (2003–2007) e colaborador em diversas gestões. Essa experiência permite uma leitura clara do momento atual.

Professor Raphael reforça que qualificar a formação exige presença, rigor ético e apoio permanente aos profissionais © CRP-PR

Ele afirma que a nova gestão demonstra energia renovada, compromisso com a profissão e disposição para retomar lutas fundamentais — como direitos humanos, ética, diversidade, saúde pública e a defesa da formação presencial.

“O Conselho precisa ser hiperativo, porque a Psicologia é enorme. E vejo nessa gestão a vontade de recolocar o profissional no centro. O Fórum já mostrou isso pela quantidade de coordenadores presentes: estávamos afastados e, agora, estamos voltando”, avalia.

Pressões da sala de aula e a urgência de repensar a formação

Raphael descreve o cotidiano da docência em 2025 com precisão quase clínica. Turmas ansiosas, estudantes hiperconectados, excesso de estímulos, dificuldade de concentração e pouca tolerância ao processo formativo.

“O jovem quer resposta para ontem. Ele lê um livro, entra no Google, consulta o ChatGPT e acha que já sabe tudo”, relata o coordenador-geral do Fórum de Coordenadores do CRP-PR.

Isso cria tensões diretas com o professor — que precisa se adaptar, atualizar-se e, ao mesmo tempo, sustentar a autoridade epistemológica da área. Há ainda a pressão por produções acadêmicas originais, em um momento em que inteligências artificiais simplificam redações, mas fragilizam processos de maturação crítica.

“Como formar um psicólogo se a construção crítica é substituída por atalhos? A Psicologia demanda presença, reflexão e vínculo — e nada disso se abrevia.”, questiona.

A reconstrução que depende do Paraná

Raphael defende que o Estado tem todas as condições para assumir protagonismo nacional, graças à densidade teórica e técnica de seus profissionais — muitos deles pouco visíveis fora do Paraná.

Ele cita sua própria trajetória como exemplo de potencial: quando coordenou o curso de Psicologia da Positivo, alcançou o maior Enade do Paraná e do Brasil, superando até universidades de referência nacional.

Para Raphael, as novas ansiedades do estudante e o impacto das tecnologias exigem reposicionar o papel docente e reconstruir o vínculo formativo © CRP-PR

Sua defesa é clara e incisiva: “Temos grandes profissionais. Precisamos aparecer no cenário nacional com a força que realmente temos.” Para Di Lascio, o Paraná reúne uma tradição formativa sólida, docentes altamente qualificados e práticas inovadoras que, muitas vezes, não ganham a projeção que merecem. Valorizar essa produção, fortalecer a identidade regional e consolidar padrões elevados de formação são, para ele, passos essenciais para que a Psicologia paranaense ocupe o lugar de destaque que já conquistou na prática.

O Paraná como laboratório de excelência e responsabilidade

Ao fim da entrevista, emerge uma síntese poderosa: o Fórum de Coordenadores não é um evento, mas um movimento. Um esforço coletivo para reconstruir pontes entre formação e profissão, recolocar a ética no centro da prática e restaurar a qualidade da Psicologia em um momento histórico de adoecimento social acelerado.

Com cerca de 100 cursos de Psicologia em funcionamento no Estado, o Paraná se tornou um ecossistema plural, desafiador e estratégico. Se existe um território onde redes de apoio, rigor formativo e articulação institucional podem produzir impacto real, é aqui.

A visão de Raphael Di Lascio aponta exatamente para isso: uma Psicologia presente, responsável, atualizada e capaz de formar profissionais à altura do desafio humano que o Brasil e o mundo enfrentam.

E o Fórum, como ele insiste, é apenas o começo.

Um profissional em múltiplas frentes da Psicologia paranaense

A trajetória de Raphael Henrique Castanho Di Lascio não se sustenta apenas na experiência acumulada: ela se atualiza diariamente em um conjunto impressionante de responsabilidades acadêmicas, clínicas e institucionais. Atualmente, ele coordena o curso de Psicologia da UniDomBosco e a Pós-graduação em Psicoeducação em Saúde Mental, além de atuar como professor e orientador na graduação e na pós-graduação.

É membro da Academia de Psicologia do Paraná, onde ocupa a 26ª cadeira, e lidera — em parceria com o CRP-PR — a coordenação geral do Fórum de Coordenadores de Cursos de Psicologia, iniciativa que ele próprio idealizou e que hoje integra o planejamento estratégico do Conselho.

Ao mesmo tempo, mantém forte presença na produção científica nacional: há 22 anos integra a Comissão Científica do ISMABR (International Stress Management Association no Brasil), contribui ativamente com a Associação Paranaense de Psicodrama (APP) e dirige a empresa de consultoria PsiComSer Di Lascio Ltda., atuando em gestão de pessoas, mentoring, qualidade de vida no trabalho e desenvolvimento de carreiras.

Na clínica, preserva há décadas seu consultório particular, sustentando a prática que fundamenta sua leitura da formação profissional. E, nos últimos anos, ampliou sua atuação para a área da longevidade: é diretor da Aging 2.0, do laboratório SUMAÚMA e um dos criadores do projeto Mature Ser, dedicado ao desenvolvimento de ações para qualidade de vida e envelhecimento ativo.

Com essa combinação singular de docência, gestão acadêmica, prática clínica, produção científica e inovação social, Raphael Di Lascio emerge como uma das vozes mais fortes — e mais necessárias — no debate sobre o futuro da formação em Psicologia no Paraná.

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